quinta-feira, 18 de novembro de 2010

"(...) ficou horrorizado ao descobrir que o choque havia destruído completamente o cérebro de sua mulher"

com muita força puxa meu braço
fecha minha mão em volta do telefone
e joga pra longe
arranca lágrimas à força,
fica dentro da garganta
esperando pra sair
uma bola de ódio
que mira e cai em todas as pessoas erradas:
devia apontar só pra cá.

-lili

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

"Talvez eles estejam cantando cantigas para você e eu só pense que eles estejam me fazendo perguntas"

de nós dois, sempre
pensei ser mais forte-
no entanto é você quem
me larga

aproveito a brecha, que
muito esperei;
no fim, eu precisava
que fosse você a encerrar
as coisas

mas às vezes me dói,
quando em saudade
de você dentro de mim
e os dedos se entrelaçando
à sua volta, eu lhe dou
beijos já não tão intensos
e você me envenena
sem dó, como antes
não fazia.

talvez, de algum modo,
você esteja agindo com
consciência, fazendo o
melhor pra mim.

o seu gosto não
é mais doce -
e mil obrigados por tudo.

-lili

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

"mas você foi algo mais que jovem e doce e alvo -- e o longo ano lembra de você"

uma carruagem
carregada de panelas
passou por trilhos
sobre minha cabeça

o objeto em minhas mãos,
segurado entre dedos,
estava mais fino e longo,
em forma nova, que percebi
mudar apenas ontem

foi apreciado,
sem a ansiedade que
sempre acompanhou
a nós dois

e a fumaça ainda dança,
como as deusas dos
antigos templos macedônios.

-lili

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

voltamos semana que vem com mais uma entrevista

azul como a parede,
eu entro.
saio só mãos
e pernas, estas
pretas, que em degradê
desaparecem junto
ao resto;

meu nome escorre
do alto falante,
clamado para
a tarefa errada.
continuo turquesa,
por trás das
câmeras, fora do
bastidor apertado:

nada aprendo.

-lili

a injeção eletrônica substituiu o carburador

braços tensos
e as ruas deslizam
à minha frente

"não escorregue com
a mão esquerda!"
pesada, com a direita
fazendo mais leve
e rápido,
eu suo

um pé fundo
e o outro
com carinho
descendo, esmagando
os pedregulhos opressores
de cada dia.

-lili

Madrinha

De branco
ou magenta
minha garganta
congestiona
qualquer possibilidade
de nao comemorar

em agosto
do ano que vem
as coisas vao mudar.



por anouk

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

hipérbole

arredondar o tempo
pra cima é uma boa maneira de tornar a história mais dramatica.
dramaurgia retardataria,
nao porque nao fica para trás,
mas vai além
dando uma impressao maior
do tombo
me fazendo uma
retardada que precisa de desculpa pra sofrer.


por anouk

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

a última vez em que o vi,

se limitava a cantadas baratas.
se revoltou contra a mesa de bar.
se apegou a afagos vazios
(sei os meus sempre foram sinceros)
foi embora já não de repente
e agora já é diferente
o contato entre nós que restamos
a vagar preocupados contigo.

-lili (de dois anos atrás)

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

oh gads, jiminy!

(...)

é que toda vez
que ele
passava a mão
em volta do
meu ombro,
os braços se
tornavam carne
e aí eu me
derreti toda
e não pude
evitar

virar fumaça
espectral, cheirando
a nicotina e
desilusão.

-lili

quinta-feira, 22 de julho de 2010

espera no aeroparque ou chimarrão

folhas banhadas recebem
pancadinhas dum cajado
metálico que libera
seu odor pútrido

leva-me lágrimas
aos olhos mal-
dormidos, leva-
me à ideia de castigo
divino, leva-me ao lado
de fora, tão frio,
para um trago amigo.

(quando saí o sol
batia no lago, rasgava
meus óculos e secou o
choro antes dele cair)

um corpo requer
outro para um abraço,
que só recebo do vento
e de tantos casacos que
se aquecem comigo.

(ainda não durmo e
conto os minutos
para que os outros
acordem, mais vivos
que eu)

não era tão difícil
quando foi o dobro dos dias,
quando tudo era novo e voltar era
vazio como a sala de espera
para o último paciente.

em duas horas de sono
conturbado não se sonha,
em duas semanas de corpo
perturbado não se acalma e
se agravam as calamidades
(as mãos dançam um 'olá')

até os vícios se controlam
sozinhos, nem eles aprovam
o excesso. também sentem o
peso de acordar com os
fantasmas, sentados em
cima do peito, saindo de
um ouvido ao outro pinicando
o que está no meio,apertando
os pés até sangrarem calor.

escutam-se estalos dos
carrinhos rondando o chão,
das unhas sendo roídas, do
canudo prateado batendo na
madeira, das costas estalando,
dos vôos atrasando duas horas,
as xícaras na mão da garçonete,
sinapses estourando sem oxigênio
e o trânsito seguindo guiado
pelos que moram aqui e não
sentem saudades

-lili

sábado, 10 de julho de 2010

belle de jour

Você saiu como
um grito que eu
não pude entender

(some! some!)

Arranhou a garganta
com força de
morte e o efeito foi o
de um tiro disparado

Correu adquirindo
som e me deixou
apavorada, sai! sai!
não é a sua hora!

Vem como um
demônio, como fumaça
negra, com tão pouco
aviso e nenhuma resposta...

por favor!, não é
a sua hora.

-lili

quinta-feira, 8 de julho de 2010

"o olho claro é a coisa mais bonita em você. quem dera enchê-lo de patos e cores,"

roubo água salgada
dos olhos pra pingar
no colchão e tentar
fazer mar

com ondas que
envolvem mas
não engolem, e se
rolo de volta à
areia nada sou
mas carne ao sol

e a pele pinica, como
a luz que cintila
na água corrente.

-lili

quinta-feira, 1 de julho de 2010

dos pincéis, nos sobram alguns fios de qualidade

lembro exatamente
dum olhar que você tinha
muito jovem

traço esse que
deve continuar
em ti, mas que
resolvo preservar
sozinho, pois,
pra mim,
voce deteriorou
inteiro quando
enfiou um garfo
no meu ombro e
sumiu com uma
ilusão de cobertas;

era incômodo
quando usava-o
para olhar pra mim,
mas agora que uso
para olhar pra
outros, acho
que entendi.

-lili

domingo, 27 de junho de 2010

19 de junho às 11:54

praia me chama,
praia me chama.
não! querida,
hoje EU to de ressaca..

-lili a.

sábado, 26 de junho de 2010

"você conhece o ditado, o diabo leva quem come sozinho"

manchas na parede são
motivo de divergência
decorativa: há quem
goste de destacá-las, como
uma forma de ornamento
trágico que não se pode
apagar, há quem passe uma
esponja banhada em
alvejante por cima para
esconder que elas um dia
existiram, ou quem
pinta a casa
inteira de outra cor
ou troca o papel de
parede e esquece
as estampas antigas.

-lili

quarta-feira, 23 de junho de 2010

manhã

as pernas,
depois os olhos,
aí a boca, que murmura
e se fecha, depois as pernas,
aí os olhos.

-lili

quinta-feira, 10 de junho de 2010

os seus lábios são pra sempre mudados depois do primeiro


vem nas mais diversas
formas e gostos
e escorre pela
garganta, envene-
nando os órgãos, infil-
trando no sangue,
só pra ser expelido,
segundos que são
infinitos milésimos
depois, e faz o coração
bater mais forte, e faz
os braços e as pernas
formigarem, e faz a mão
voltar em direção à boca
pra mais uma rodada.

-lili

notas sobre o amor incondicional: (em 7/6/09)

você me irrita,
eu te amo,
você me arranha,
eu te amo,
você me morde,
eu te amo,
você grita,
eu te amo,
você deita ao meu lado,
eu te amo,
algumas noites me troca por outros,
eu te amo,
você me faz sangrar,
eu te amo,
você me leva a te xingar,
eu te amo,
você bagunça minha cama,
eu te amo,
acordo com você tendo roubado meu travesseiro
- todo dia -
eu te amo.

-lili (de mamãe)

segunda-feira, 31 de maio de 2010

aula de impressa

falo,
te frustro,
me frustras,
nos frustramos.

calo,
me agonio,
não ligas,
te detesto

falto,
não penso,
não pensas,
regozijamos.

-lili

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Café na cama

2 torradas
Vitamina
Carinho
na bandeja:
o remédio
de pressão.





por anouk

Surto na rodoviaria

Falta uma hora
exatamente
para meu ônibus sair.

Meu irmão acabou de chegar da argentina
fui ao aeroporto
Matei a saudade no carro
e agora:
ônibus.

Menos de meia hora,
e quando eu estiver de volta
ele já vai estar na
Argentina.

Não existe a mínima chance
de encontrar alguem conhecido

É muito barulho
A luz é muito branca
Meus olhos estão ardendo
talvez sono,
ou ansiedade

Ver tio,
primas

Viver esse universo
caótico;
cabareico.

Estou com uma tosse tuberculosa e me sinto frágil

Emotivamente,
já há um tempo
e agora, por estar aqui.

Sem a mínima chance
de encontrar alguem conhecido

Quero que o tempo passe

escrevo rápido
mesmo sabendo que
o quanto mais rápido eu escrever
menos tempo terá passado
ao final dessa página.

Confortante a ilusão do
tempo ser corrido pelas páginas

dessa forma eu teria algum controle sobre ele.

Queria ouvir música para
abafar
esse som de
Máquina e gente e porta
e fala e passo e rodinha de mala

Risada e pessoas mastigando
e papel amassando
e vassoura
e pá pegando o lixo
e escada rolante e mais fala
e televisão.

odeio o barulho da rodinhas
de mala entrando na escada
rolante

Tenho medo do
meu fone de ouvido
ser chamativo demais
e me sinto

frágil.




por anouk

sexta-feira, 21 de maio de 2010

"Lá estava a lembrada poeira de pó sobre seu bronzeado"

dedos que nunca
amarelaram, mas
exalam: deve
ser o mesmo
cheiro do sangue
que corre pelo
corpo, subindo
e descendo, pre-
enchendo as
extremidades de
tanta gente, segredo,
risada e choro, que
se esquece
quase tudo.

se necessária a
reminiscência, dê
logo quarenta
anos ao cérebro,
pois na última porta
são muitos os
que dançaram valsas,
e apenas um que
canta ainda
(picture you upon my knee
with tea for two
and two for tea
just me for you
and you for me
alone),
sempre se admirando
no espelho.

-lili

terça-feira, 18 de maio de 2010

Striptease

debaixo das luzes
vermelhas, ela
se engalfinhava
no poste.
despia-se:

a blusa subindo,
("tive depressão clínica")
caindo por cima da cabeça
no chão,
("meu pai casou-se seis vezes")
abre o botão da saia,
("após a morte de minha mãe")
que escorrega pelas coxas
("uma delas era sociopata")
e rasga um pouco da meia arrastão
("esta durou oito anos")

envolve a perna em
volta do cano
("minha irmã se envolveu com drogas")
dá a volta, inclinando a cabeça;
("nós frequentávamos as
escolas erradas")
joga o cabelo para a frente,
("malditos jesuítas")
agora para trás;
("aposto como eram pederastas")

sacode os ombros para
os lados,
("meu primeiro amor
nada quis comigo")
juntam-se ao movimento
os quadris
("o segundo não ligou no dia seguinte")
as mãos seguram no poste
("recentemente larguei minha analista")
e abre as pernas:
"ela disse, certa vez, que eu era
emocionalmente retardada."

apaga-se o palco e ela,
de lingerie, sai
completamente nua.

-lili


sexta-feira, 14 de maio de 2010

"Eu te amo, você cheira a gasolina"

a gente viajava de carro
clandestinando laços
nos espelhos e em
nós mesmos

vivendo de sonhos
de telhados laranjas
e vinhos sem taça

(sou inter-
rompida por um
coro de homens com
cabeças raspadas e jaque-
tas pretas que me beliscam a
bunda).

vai ser cálido,
sentar nas escadas com
as cores das casas rolando pelas
bochechas, aguadas, caindo
comigo, fazendo maquetes de
fontes.

-lili

quinta-feira, 13 de maio de 2010

"Pierre, por favor, não deixe os gatos saírem"

deve se tratar
de um fenômeno sazonal,
sobre o qual só existem gráficos
que são fotos do mar.

- uma mulher abre
a porta vestindo
um capacete amarelo -
não existem mentiras:

sabe-se que o ciclo
transmuta, transfigura e
traveste o
"fenômeno", que ri tão
silencioso quanto
qualquer coisa
fechada
que não lembra
como é
ser aberta.

-lili

segunda-feira, 10 de maio de 2010

elmo

que objeto engraçado,
tão côncavo e plástico,
em amarelo desbotado;
eu chiava orgástico:

foi súbito o seu retorno,
saindo do cabideiro;
deixaste de ser adorno
pra fazer de mim inteiro.

-lili

domingo, 9 de maio de 2010

"você tem isso,
é um dom,
basta saber usa-lo."
só como eu, ou
só com você,
só como sozinho,
porque zinho,
sem só
é tão sozinho quanto com.







por anouk

quinta-feira, 6 de maio de 2010

arca russa

uma atitude desesperada,
típica de quem ainda não se
conformou com a chegada da arca.
ela ainda me leva, e agora
aceito os russos.
mas o desespero quis me presentear
com seus vícios.
desculpe, não posso agarrá-los.
se alguém te consertar,
te aceito de presente.
mas por ora, assuma-os,
enquanto eu sigo na arca
limpando minhas feridas.

- manu

sexta-feira, 30 de abril de 2010

"A coruja, mensageira da noite"

Vênus deitada
e sua cama é o mar;
Ali ela nasceu,
junto à destruição
titânica, abrindo
caixas de pandora,
e o resto se cobriu
de poeira
(sem múmias em
posição fetal ou
mosaicos no chão).

Na espera de uma
escavação arqueológica,
nada há de se reerguer,

Só cinzas, cobrindo também
o curioso canapé
envolto em bege ou marrom
e escamas de pele;

Mulher em carne viva,
dormente de dor,
estragada, disforme,
ao seu lado
foi Vênus deitada.

-lili (tirando sérias licenças poéticas em relação à mitologia grega)

última da semana

corrente gelada
que perfura a
barriga, corre
até o peito e
fica se
contorcendo em
nós:
não são suas
palavras, mas
o jeito com
que falas.

-lili

minha própria Sally Carrol

seus bracinhos
espreguiçavam pra
cima, inventando
verão nesse quarto.

protestos involuntários
saíam pelo canto da
boca enquanto sua
maciez sonolenta
era perturbada.

a vingança veio
cheia de dentes e unhas,
com a mesma lentidão com
que roubou minha água.

-lili

"sobrou a natureza-morta que compunha seus pratos"

Atrás dos dentes
um vômito de palavras
engasgando o ar,
sem poder ir ao chão
fazer bagunças inexplicáveis.

Basta lembrar de um
qualquer olhar e as
letras desordenadas
se escondem atrás
dos olhos e embaçam
um pouco da sujeira.

-lili

Cameron

um estalo na bochecha
e eu saio correndo
gordinha, você vermelho,
nem ameaça antes de
curvar o rosto em desgosto:

um empurrão na caixa
de areia diz amor em
todos os cantos

-lili

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o que sai pela
boca não são
palavras, são
canudos que
sugam a alma
despedaçada no
chão de "madeira"

-lili do ano passado

quando as árvores andarem

deitar na cama
sua camisa-e-gravata,
sua barba-e-óculos
e ver-te ali, surgindo,
vertendo sangue e
cérebro, observando
minhas mãos sujas
de argila.

-lili

segunda-feira, 26 de abril de 2010

poema do meu aniversário II

Não houveram
cerejas de feira,
mas haviam
marrasquinas
guardadas na
geladeira.

-lili

terça-feira, 20 de abril de 2010

"Jacksonville"

Quando universos
paralelos similares
colidem, digamos,
colocando um prédio
no lugar de outro,
a única vantagem
é encontrar nos
escombros (da óbvia
destruição de ambos -
um some e o outro quebra
com a colisão) objetos
que fornecem informações
sobre a outra realidade.

Se não é de interesse
fazer estudos sobre o
outro lado, o que resta
é um prédio e toda a
vida ali comportada
mortos e destruídos;
Aí jaz a consequência
da sobreposição de
construções, que
fique a lição.

-lili (com créditos a j.j.a.)

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Devir

vento de um
canto ao outro
(existiam mais
prédios aqui),
postes enferrujados
sem lampiões que
os acendam, cascalho
na Autobahn criando
limites de velocidade,
casas de eternas
paredes descascadas
que abdicaram de
qualquer tinta,
mascarando o
descaso decorativo.

o divã vermelho está
trancado junto à biblioteca,
com cadeado cuja
combinação não se
lembra, tudo em
esforço coletivo
para evitar a
máxima eficiência:
Alguém foi bem sucedido.

-lili