quinta-feira, 27 de maio de 2010

Surto na rodoviaria

Falta uma hora
exatamente
para meu ônibus sair.

Meu irmão acabou de chegar da argentina
fui ao aeroporto
Matei a saudade no carro
e agora:
ônibus.

Menos de meia hora,
e quando eu estiver de volta
ele já vai estar na
Argentina.

Não existe a mínima chance
de encontrar alguem conhecido

É muito barulho
A luz é muito branca
Meus olhos estão ardendo
talvez sono,
ou ansiedade

Ver tio,
primas

Viver esse universo
caótico;
cabareico.

Estou com uma tosse tuberculosa e me sinto frágil

Emotivamente,
já há um tempo
e agora, por estar aqui.

Sem a mínima chance
de encontrar alguem conhecido

Quero que o tempo passe

escrevo rápido
mesmo sabendo que
o quanto mais rápido eu escrever
menos tempo terá passado
ao final dessa página.

Confortante a ilusão do
tempo ser corrido pelas páginas

dessa forma eu teria algum controle sobre ele.

Queria ouvir música para
abafar
esse som de
Máquina e gente e porta
e fala e passo e rodinha de mala

Risada e pessoas mastigando
e papel amassando
e vassoura
e pá pegando o lixo
e escada rolante e mais fala
e televisão.

odeio o barulho da rodinhas
de mala entrando na escada
rolante

Tenho medo do
meu fone de ouvido
ser chamativo demais
e me sinto

frágil.




por anouk

sexta-feira, 21 de maio de 2010

"Lá estava a lembrada poeira de pó sobre seu bronzeado"

dedos que nunca
amarelaram, mas
exalam: deve
ser o mesmo
cheiro do sangue
que corre pelo
corpo, subindo
e descendo, pre-
enchendo as
extremidades de
tanta gente, segredo,
risada e choro, que
se esquece
quase tudo.

se necessária a
reminiscência, dê
logo quarenta
anos ao cérebro,
pois na última porta
são muitos os
que dançaram valsas,
e apenas um que
canta ainda
(picture you upon my knee
with tea for two
and two for tea
just me for you
and you for me
alone),
sempre se admirando
no espelho.

-lili

terça-feira, 18 de maio de 2010

Striptease

debaixo das luzes
vermelhas, ela
se engalfinhava
no poste.
despia-se:

a blusa subindo,
("tive depressão clínica")
caindo por cima da cabeça
no chão,
("meu pai casou-se seis vezes")
abre o botão da saia,
("após a morte de minha mãe")
que escorrega pelas coxas
("uma delas era sociopata")
e rasga um pouco da meia arrastão
("esta durou oito anos")

envolve a perna em
volta do cano
("minha irmã se envolveu com drogas")
dá a volta, inclinando a cabeça;
("nós frequentávamos as
escolas erradas")
joga o cabelo para a frente,
("malditos jesuítas")
agora para trás;
("aposto como eram pederastas")

sacode os ombros para
os lados,
("meu primeiro amor
nada quis comigo")
juntam-se ao movimento
os quadris
("o segundo não ligou no dia seguinte")
as mãos seguram no poste
("recentemente larguei minha analista")
e abre as pernas:
"ela disse, certa vez, que eu era
emocionalmente retardada."

apaga-se o palco e ela,
de lingerie, sai
completamente nua.

-lili


sexta-feira, 14 de maio de 2010

"Eu te amo, você cheira a gasolina"

a gente viajava de carro
clandestinando laços
nos espelhos e em
nós mesmos

vivendo de sonhos
de telhados laranjas
e vinhos sem taça

(sou inter-
rompida por um
coro de homens com
cabeças raspadas e jaque-
tas pretas que me beliscam a
bunda).

vai ser cálido,
sentar nas escadas com
as cores das casas rolando pelas
bochechas, aguadas, caindo
comigo, fazendo maquetes de
fontes.

-lili

quinta-feira, 13 de maio de 2010

"Pierre, por favor, não deixe os gatos saírem"

deve se tratar
de um fenômeno sazonal,
sobre o qual só existem gráficos
que são fotos do mar.

- uma mulher abre
a porta vestindo
um capacete amarelo -
não existem mentiras:

sabe-se que o ciclo
transmuta, transfigura e
traveste o
"fenômeno", que ri tão
silencioso quanto
qualquer coisa
fechada
que não lembra
como é
ser aberta.

-lili

segunda-feira, 10 de maio de 2010

elmo

que objeto engraçado,
tão côncavo e plástico,
em amarelo desbotado;
eu chiava orgástico:

foi súbito o seu retorno,
saindo do cabideiro;
deixaste de ser adorno
pra fazer de mim inteiro.

-lili

domingo, 9 de maio de 2010

"você tem isso,
é um dom,
basta saber usa-lo."
só como eu, ou
só com você,
só como sozinho,
porque zinho,
sem só
é tão sozinho quanto com.







por anouk

quinta-feira, 6 de maio de 2010

arca russa

uma atitude desesperada,
típica de quem ainda não se
conformou com a chegada da arca.
ela ainda me leva, e agora
aceito os russos.
mas o desespero quis me presentear
com seus vícios.
desculpe, não posso agarrá-los.
se alguém te consertar,
te aceito de presente.
mas por ora, assuma-os,
enquanto eu sigo na arca
limpando minhas feridas.

- manu

sexta-feira, 30 de abril de 2010

"A coruja, mensageira da noite"

Vênus deitada
e sua cama é o mar;
Ali ela nasceu,
junto à destruição
titânica, abrindo
caixas de pandora,
e o resto se cobriu
de poeira
(sem múmias em
posição fetal ou
mosaicos no chão).

Na espera de uma
escavação arqueológica,
nada há de se reerguer,

Só cinzas, cobrindo também
o curioso canapé
envolto em bege ou marrom
e escamas de pele;

Mulher em carne viva,
dormente de dor,
estragada, disforme,
ao seu lado
foi Vênus deitada.

-lili (tirando sérias licenças poéticas em relação à mitologia grega)

última da semana

corrente gelada
que perfura a
barriga, corre
até o peito e
fica se
contorcendo em
nós:
não são suas
palavras, mas
o jeito com
que falas.

-lili

minha própria Sally Carrol

seus bracinhos
espreguiçavam pra
cima, inventando
verão nesse quarto.

protestos involuntários
saíam pelo canto da
boca enquanto sua
maciez sonolenta
era perturbada.

a vingança veio
cheia de dentes e unhas,
com a mesma lentidão com
que roubou minha água.

-lili

"sobrou a natureza-morta que compunha seus pratos"

Atrás dos dentes
um vômito de palavras
engasgando o ar,
sem poder ir ao chão
fazer bagunças inexplicáveis.

Basta lembrar de um
qualquer olhar e as
letras desordenadas
se escondem atrás
dos olhos e embaçam
um pouco da sujeira.

-lili

Cameron

um estalo na bochecha
e eu saio correndo
gordinha, você vermelho,
nem ameaça antes de
curvar o rosto em desgosto:

um empurrão na caixa
de areia diz amor em
todos os cantos

-lili

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o que sai pela
boca não são
palavras, são
canudos que
sugam a alma
despedaçada no
chão de "madeira"

-lili do ano passado

quando as árvores andarem

deitar na cama
sua camisa-e-gravata,
sua barba-e-óculos
e ver-te ali, surgindo,
vertendo sangue e
cérebro, observando
minhas mãos sujas
de argila.

-lili

segunda-feira, 26 de abril de 2010

poema do meu aniversário II

Não houveram
cerejas de feira,
mas haviam
marrasquinas
guardadas na
geladeira.

-lili

terça-feira, 20 de abril de 2010

"Jacksonville"

Quando universos
paralelos similares
colidem, digamos,
colocando um prédio
no lugar de outro,
a única vantagem
é encontrar nos
escombros (da óbvia
destruição de ambos -
um some e o outro quebra
com a colisão) objetos
que fornecem informações
sobre a outra realidade.

Se não é de interesse
fazer estudos sobre o
outro lado, o que resta
é um prédio e toda a
vida ali comportada
mortos e destruídos;
Aí jaz a consequência
da sobreposição de
construções, que
fique a lição.

-lili (com créditos a j.j.a.)

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Devir

vento de um
canto ao outro
(existiam mais
prédios aqui),
postes enferrujados
sem lampiões que
os acendam, cascalho
na Autobahn criando
limites de velocidade,
casas de eternas
paredes descascadas
que abdicaram de
qualquer tinta,
mascarando o
descaso decorativo.

o divã vermelho está
trancado junto à biblioteca,
com cadeado cuja
combinação não se
lembra, tudo em
esforço coletivo
para evitar a
máxima eficiência:
Alguém foi bem sucedido.

-lili

segunda-feira, 29 de março de 2010

Radiação

tudo o que há de pior
era como travesseiros,
tecidos com relatos dos
injustiçados, que
compunham quartos antigos.

não entrávamos em pânico,
e assim entranhamos em
terra de ninguém
(bem fomos avisadas);
até que se soube que aquilo
era o todo e já era
indesculpável.

passaram casas
suficientes para
caírem (ou cairmos
todos) em nostalgia,
implorando em silêncio
para fingir que nunca
saímos do imaginário
(onde ainda ríamos histéricas,
sem caretas)

e toda aquela graça,
nunca pudemos compartilha-la
além dos nossos
sussurros e olhares.

claro que só o
que prosperou foi
meu amor por você.

- lili, para alice

terça-feira, 23 de março de 2010

"The tulips are too red in the first place, they hurt me."


os botões aflitos se
atropelam goela abaixo,
pois já não se
podem deixar nascer.

01, 21, 23, 01,
abiogêneses sobrepostas
descendo, sufucando,
me torturando na
tentativa de
fazer esquecer.

água nos olhos,
preciso vomitar!
não.
água com açucar.

01
é tudo que
devia ter ficado,
mas é um ciclo
e não sabemos
como quebrá-lo.

-manu

sábado, 20 de março de 2010

Mortas vivas
cacarejando em
meio ao
ascender do dia.

-lili e manu

Importa-se se eu baixar as pálpebras, por favor?

A goteira arranjou
novo encanador,
que lhe deu um
nó com plástico.

O outro funcionário,
já há muito desprovido
daquela virilidade e
ainda incompetente, faz
aparições no corredor.

E o síndico, agora
na França, ainda ri
com o ódio da desaprovação:
"É tudo sua culpa."

Não estou sozinha quando
o chamo de consciência
maldita e física, nem quando
regozijo, senhor síndico, por
não mais o senhor habitar
nosso solo.

Por que ainda te
escutamos, todas
em silêncio, com
vergonha? Continue
na França, fazendo
seu filme.

A pia amanhã volta
a gotejar, mas o que
o síndico diria?
As Páginas Amarelas
estão sob o balcão,
caso seja necessário.

-lili

segunda-feira, 15 de março de 2010

"Ah, mas eu não vou como vim"

se você aqui cortar, não
sangra; tamanha
é a dormência
no pé--

não faz cair,
nem implica um sentir,
tampouco evoca um xingar
ou afagos saudosos.
nada,

é o que desperta, e
não agrada ou agrega
ao que seguramente
chamo de um caso
sem evidências.
te julgo criminoso,
não o digo no jornal:

és apenas suspeito
para olhares alheios
de desinteresse.

um dia hei de ler
seu obituário.
talvez não reconheça seu nome,
como hoje já é com seu corpo
e entranhas.

-lili

quinta-feira, 11 de março de 2010

"fantasia em g mol"

lia música nas rachaduras da parede,
que tomavam dimensão, me roubavam
carne e, robustas, corriam cantando;

surgiram no caminho areais em chãos
igualmente alvos e negros, invisíveis,
(no preto e branco, quem sabe não seriam
laranjas e azuis), que faziam correr
monstrengos e ondocas em suas
pequenas montanhas de grãos.

depois, os furos em madeira,
os rastros de cobre ou caneta,
os tijolos e fechaduras só
pararam de tentar falar alto e
as portas se abriram sem o
estardalhaço todo dos outros materiais.

-lili

sábado, 6 de março de 2010

cotidiano

Leblon
Ônibus
General Osório
metrô
Largo da Carioca
metrô
General Osório
Ônibus
Barra
Ônibus
Gávea
Ônibus
São Conrado
Ladeira
casa
cama

Peru tonto?
não. Tolo
Atolado

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

il fumo uccide


muito imponente,
você,
em toda parede
nas mais
variadas formas
de linguagem:
"não, não, não!"
E lá se vão
trin-ta horas

muito impotente,
eu,
resmungando sozinha
e sem efeito algum.

-lili enfezada no aeroporto

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

"E na primeira chance faz tudo virar pedra. "


faca novíssima,
reluzente, vem
inesperada de encontro
ao meu estômago.
golpe rápido,
não o suficiente
pra que o bandido
não seja identificado:
o estômago mata em vinte
minutos que não se sabe
quantos dias vão durar.
e não há polícia ou desculpa
que repare ou perdoe
tamanha incoerência
numa cozinha,
território familiar e neutro,
em que pensei que as
coisas poderiam ser
sempre as mesmas.

-lili

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

carnaval, angra dos reis 2010

"perdi o leme!"
capitão logo ganha
dois novos
pares de olho

"esquerda!,
nao, um tiquito
para a direita!"

agora está safo,
entao tais olhos
duplicados
antes
amedrontados
agora se fecham
para tomar um pouco de sol.


por anouk

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

"isso é um mau hábito, omar!"

Talvez eu confiasse
Mais em você se
Você fosse só alma.

Sem esse corpo
Cheio de agonias
E a mente desengonçada,
Só ar, como um
Espaço de gaveta
Separado especialmente.

Sua presença física
Rouba a ferrugem da
Lembrança, que permanece
Pristina por trás da porta.

Mas se eu
Sou voyeur,
Somos dois
E talvez nos
Relances tudo
Tenha feito
Sentido.

-lili

domingo, 24 de janeiro de 2010

caminho de ida

tum
tum tum
tumtumtumtum
turum
tumtumtumtum
turum tum
tumtumtumtum
trum
tumtumtumtum
um cão corre
por entre os
vinhedos
tumtumtumtum
tumtumtumtum
Prossima fermata
Napoli.

-lili

disposição trágica

me fere,
o caco quebrado
no chão, nunca
encontrado, em
misto a poeira,
sou eu.

-lili

ascenção e queda de um relacionamento na primeira hora do percurso do trem

a gente dormia
em mesma sintonia,
cabeças inclinadas

o seu telefone toca
- hm. hm.
você bate os dedos
na calça, fazendo
barulho
Hm

acordo, você já nem
liga mais.
tiro o cachecol
e esbarro em você
Desculpa

mas a gente trocou
de estação, você ficou
puto e mudou de
lugar, já é tarde
demais.

-lili

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

"possante-me" marujo!

Eram corpos de biquine
posando no
mastro do
barco

,muitos corpos
em pose
,posando
possando
possante
possui
nao, nao possui
quer possuir

sobem na retranca
e enquanto dançam,
possantam (possuem)
de forma intensa
como nunca se havia visto

tais meninas
tao novas
tao puras
macias e comportadas.

o mais estranho
de tudo isso
é que nenhum marinheiro
realmente
parou para olhar.



anouk

sábado, 9 de janeiro de 2010

dialogo entre duas pessoas intimas em uma manha de cama magnetica.

- Uma depressão é um ponto ou região mais baixa que os pontos à sua volta.
- é assim que voce trabalha, com palpites e suposicoes?

olhos cheios d'agua. Mariana nao sabia mais o que dizer.


-anouk

'seu rosto na luz da manhã, você é tão cool'

vocês todos
vocês sem dentes
cheios de mãozinhas
que tem dedos e unhas,
vão ganhando osso
e às vezes a boca
e os olhos continuam
os de sempre, dançando
muito lindinhos enquanto
vocês falam e mexem
o rosto e o corpo que
vai junto e é aquele
esqueletinho que
não é mais tão rosa
mas continua macio
mesmo vocês tendo
já mais de um metro
e setenta e usarem
roupas até mais
engraçadas que
quando ainda
não tinham
nem registro.

-lili

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

quem sabe um intervalo ou até todo um fim

chega de xícaras
chega de chá
bules nunca causam
grandes danos, pires
enojam até a alma
mas a porcelana
se quebra e a
alça reta não
mais o é.

-lili (acho que de uns meses atrás)

"alguns elogiam na manhã o que culpam à noite"

sempre preferi
o nada
onde o nado
é difuso e
cada palavra
doce se
torna ondas
que a tudo
encaixotam.

-lili

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

demência

muitos dedos sem
palma, que em
tudo encostam
e nada seguram.

bundas empinadas
para o ar esperando
uma palma-
palmada, de mão
cheia, mas mal
conseguem
o toque de uma
planta do pé

pés que nunca
chegam ao chão,
com membranas
que fazem nadar
e não tem
aderência.

tudo corpo,
e seus adereços--
que a nada tocam,
sem o peso
de alma alguma.

-lili